sábado, 5 de novembro de 2011

Use e (não) abuse


Pareço, logo existo

Foi-se o tempo em que a disputa se resumia ao clássico Ser x Ter. Dizem que ninguém mais dá a mínima para o que é, só para o que tem. Exagero. As pessoas ainda se preocupam com o que são. O problema é que não gostam do que são. Gostariam de ser outra coisa. E aí entra o verbo que está no topo das paradas hoje em dia: parecer.


Tem gente que quer parecer rica, e adota um padrão de vida que não condiz com a sua realidade. Pra manter a fachada de bem-nascida, acaba colecionando dívidas e queimando seu nome na praça. Nos eventos sociais, pode até ser a mais fotografada, mas para os comerciantes é bola preta na certa. A rica mais sem crédito das colunas.

Tem aqueles que querem parecer mais bem relacionados do que são, e se enturmam, forçam intimidade e grudam feito chiclete em pessoas que mal conhecem, só para descolar um convite para uma festa, um show, uma estreia, qualquer lugar que projete.
Os que querem parecer mais cultos do que são, você sabe, são aqueles que nunca foram além do prólogo do livro e é o que basta para olharem a ralé de cima para baixo, como se fossem portadores da sabedoria universal.

Há os que querem parecer mais jovens do que são: bom, quem não gostaria? É uma dádiva parecer ter cinco anos menos, sem esforço. A genética é mais generosa com uns do que com outros. Há muito tempo que eu não tento mais adivinhar a idade de ninguém: sempre erro, já que todo mundo parece ter bem menos. Mas se você tem 56 e parece ter 56, não é caso para enfiar a cabeça dentro do forno.

Os casos mais patéticos, no entanto, são os daquelas pessoas que querem parecer mais felizes do que são. O recurso adotado: mentem. O casamento delas está uma lua de mel, os filhos só dão alegrias, são muito requisitadas no trabalho, os amigos não param de telefonar, a vida tem sido um passeio num campo florido, e fica sem explicação aquele olhar melancólico, o sorriso forçado, a exaustão de ter que passar o falso entusiasmo adiante, como se não tivéssemos condições de perceber seu verdadeiro estado de ânimo, que é coisa que se transmite sem palavras. Ver alguém se esforçando para parecer feliz é das situações mais constrangedoras que se pode testemunhar.

Está triste? Esteja! Não é rico, nem jovem, nem belo? Nem por isso ficará sozinho. Pessoas não se apaixonam por estereótipos, mas pela singularidade de cada um, pela capacidade de ser surpreendido, pela sedução que o inusitado provoca. Uma pessoa que se preocupa em “parecer” já está derrotada no primeiro minuto de jogo. Dá valor demais à opinião dos outros, não age conforme a própria vontade, não se assume do jeito que é, inventa personagens para si mesmo e acaba se perdendo justamente deste “si mesmo”, que fica órfão. Quer parecer mais inteligente? Comece admitindo que não sabe nada sobre nada e toque aqui: ninguém sabe.
(texto de Martha Medeiros, publicado no jornal Zero Hora/RS – 21/setembro/2011)

Esse texto me fez pensar em como o mundo muda e em como somos carregados por essas mudanças, seja voluntaria ou involuntariamente. Hoje em dia, não dá para negar que as redes sociais tomaram uma dimensão descontroladamente gigante e que, muitas vezes, para alguns, é difícil separar o mundo virtual do mundo real. O primeiro é paraíso criativo. É possível criar, mudar e reinventar. Nele, seu perfil define quem você é, ou quem você quer ser, na maioria das vezes. Já no mundo real, o espelho diz muito mais sobre você do que gostaria. 
Apesar de permear pelos dois Universos, é interessante delinear os muros de contorno que definam os limites entre um e outro. Deixar que os dois se fundam e se percam em suas definições podem deixá-lo perdido com dificuldades em achar o caminho de volta. Dizem que tudo em excesso faz mal. Prefiro não ver para crer.

Superficialidade não me atrai. Não quero uma realidade inventada, mas inventar o que é irreal...

3 comentários:

  1. Martha Medeiros sempre perfeita, adoro essa mulher!

    Realmente o pior são os que fingem felicidade. E já fiz post sobre isso, sobre essa indústria da felicidade que move o mundo atualmente, niguém pode parecer triste que logo é descartado. Nas redes sociais da internet é um mar de gente feliz e que se dá muito bem na vida. Fico olhando aquilo e pensando na sujeira escondida embaixo do tapete.

    Enfim, espero não embarcar nessa onda. Ou pelo menos manter minha sanidade para saber diferenciar o que é real do que é fantasia....rs.

    Beijocas

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Gente eu sou uma doida, agora que vi que comentei duas vezes o mesmo texto... kkkkkkkkk!

    Não tem problema, nesse caso o excesso é melhor que a falta... rsrs.

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